DEMÔNIO A QUEDA - introdução ao cenário (capítulo 14)

14. Praças [Cálculo - 1]


HELL-o, people! Como vão?

Depois de algumas surtadas com o trabalho, pandemia galopante e puxadas de orelha do médico, euzinha, Morrigan Ankh, retorno com os capítulos do cenário de "Demônio, A Queda". Desta vez, novos nomes, novas lembranças e dois mundo colidindo. Não sabe que se trata? Confere os links no final deste capítulo para entender o trabalho de conto que apresenta este cenário de RPG!

Sem mais demoras... Bora lá! (Mil desculpas pelo hiato, mas eu realmente estive em uns momentos tensos.) *******


Esteve de férias por duas semanas no interior, no sítio do tio. Foram duas semanas um tanto entediantes, mas gostava da senhorinha a qual se acostumou a chamar de “tia Ana” e prometera levá-la para ver o velho tio. Em outras ocasiões, Sérgio vivia dando desculpas. Sempre havia algo do trabalho, um compromisso inadiável, uma enxaqueca terrível, até que o acidente de carro transformou a personalidade do sobrinho, tornando-o alguém mais inclinado a equilibrar o lado profissional com o pessoal.


A cicatriz, que subia do joelho até o quadril, sempre o lembrava de pensar na sorte que teve. O hospedeiro seria um vegetal completo sobre um leito de hospital, não fosse sua intervenção. No relatório do acidente, o carro dera perda total e alguns ainda diziam que fora um milagre vê-lo falar e andar. Tinham razão, fora um milagre, mas não do tipo que imaginavam.


Agora, entrava pela porta do apartamento carregando as malas e já pensando em pedir para que a tia fizesse um chá para os dois. Seria um Lady Grey, já que o Earl Grey costumava ser forte demais para o paladar dela. Ele abriria um pacote de biscoitos. Havia algo muito reconfortante nesse pequeno ritual do chá que adorava, adorava tanto, que não conseguia entender como seu hospedeiro jamais teve tempo.


Dentre as espécies, os humanos seriam os únicos com tanto tempo e potencial para justamente admirar a delicadeza das mãos daquela senhorinha, enquanto ela pegava o bule e despejava uma porção de líquido na cerâmica clara com decoração floral. Somente eles conseguiriam criar cubinhos de açúcar e, depois, dialogar entre si sobre como adoçar o chá seria uma profanação. Internamente, ria observando os mortais. Terminou a bebida e se despediu da tia Ana. Era hora de ir para casa, se preparar para o retorno à rotina.


Abriu a porta e ligou o interruptor. Jogou a bagagem no sofá e resolveu que, hoje, seria o dia de deixar a arrumação para amanhã. Quando fechou os olhos, sonhou sobre eras que há muito não lembrava.


No sonho, começava observando o vazio absoluto tomar forma. No começo, não havia nada para ver, nem ouvir, nem tocar. Nada que os sentidos pudessem compreender, pois tudo era ausência. Enquanto observava as mãos de Elohim mais habilidosos, pode testemunhar o surgimento de algo, daquilo que negava o Nada, o Vazio e a Ausência, algo que inseria um novo conceito. Ali, formava-se a matéria, ou o princípio dela. O primeiro átomo com toda a complexidade estrutural e energia necessárias para dar continuação a inúmeras formas de criação, de matérias, de materiais. Viu, fascinado, o que seria sua substância de trabalho por eras vindouras. Em outro momento, viu-se caminhando por um cânion de terras tão vermelhas quanto as do Deserto do Arizona, nos Estados Unidos, porém, não tão quentes. Não estava só, muito pelo contrário, havia centenas de outros anjos realizando trabalhos variados, aperfeiçoando aquele local para que, no futuro, os filhos de Adão e Eva pudessem fazer dali mais um lar. Logo após, a escuridão tomou tudo. Era escuro, ao mesmo tempo em que podia sentir e escutar o desespero por todos os lados, tentava se mover, queria fugir, mas, sem corpo, era impossível. Lembrou com pavor da situação de não ter qualquer controle e da miserável situação em que vivera. Só, solitário, sozinho, abandonado, subjugado, infeliz, desesperado por um fim que jamais chegava.


Não era mais um Elohim contente por ser útil à Criação e seu Senhor, era apenas um pária, um execrado, tal qual os outros com quem dividia a prisão. Gritou em sua mente até que a razão o lembrou do quão infrutífero era e o quanto as coisas só piorariam. No Abismo, os Anjos Rebeldes recebiam a revolta e o amargor de seus pares, só havia prisioneiros com os quais se relacionar, mas era menos pior do que nada. Sem amor, sem decência, sem material para manipular, até mesmo o ódio e a violência era tidos como preciosidades. Pelo menos, alguma coisa acontecia ali dentro. Qualquer coisa era melhor do que o sofrimento diário, qualquer coisa que movesse a mente daquilo, ainda que por breves frações de tempo.


Acordou suado. Enxarcado, com frio e uma sensação de violação. Raramente tinha sonhos assim, mas eram sempre assustadores. Levantou da cama e trocou de roupa, enquanto esperava uma xícara de café aquecer no microondas. “E lá se foram meus planos de dormir como um bebê.” Pensou.


* * *

[De volta à praça]


Se Tural sabia o que estava ali, Dolores ignorava. Ela apenas viu quando Débora levou a mão em sua direção e reagiu. Tural sentiu a colher tocar a pele. O primeiro segundo foi um susto leve ao sentir o toque frio do metal e iogurte. O próximo segundo foi cruel, sem sentido, dolorido.


A colher, fruto da engenhosidade de outro Caído, era inocente por fora, mas tinha a alma de uma espada, literalmente. Era uma arma sutil, uma lâmina sutil, escondida naquele objeto tão ordinário e mundano. Quando Dolores finalmente foi atrás de Nemiaim "Forjadora de Desesperos", já havia gasto alguns meses se preparando. Entre recuperar-se de seu combate contra Zul-Phaktur e ainda ter que ser a mortal Dolores, deu um jeito de buscar informações sobre a Malfeitora. Ao que tudo indicava, Nemiaim atendia por Helena Torres Figueiredo e estava hospedada em um hotel. Precisando reduzir o número de possíveis testemunhas, Dolores começou a insinuar-se nas redondezas do hotel durante a noite. Na terceira noite, a Malfeitora mordeu a isca e foi atrás dela. Indo por ruas, ruazinhas e becos, Dolores aproveitou a cidade a seu favor. Se Nemiaim estava num hotel, certamente não era da cidade, logo, Dolores esperava confundí-la e atraí-la para um local favorável. Na praça do centro histórico, ela parou e começou a fumar, sentada num banco, esperando pelos passos de sua “visita”, apertando a faca que obtera com Zul-Phaktur, dentro da manga do casaco.


- Boa noite… Tem fogo? – disse Nemiaim chegando à praça.


Sabiam que não havia necessidade de resposta. Nemiaim avançou no mesmo instante sobre Dolores, empunhando a colher. Não fosse a faca, a colher teria cortado através do braço dela. A Malfeitora olhou com espanto, certamente porque esperava uma resistência mais fraca, e por não acreditar que a adversária simplesmente “segurou” a colher no próprio braço (ninguém havia feito isso até então, ninguém desconfiara da colher, ou sequer tinha um braço invencível!). Mas, agora, com Nemiaim surpresa, Dolores ganhara vantagem e avançava.


Abusando de suas habilidades, Dolores saltou sobre Nemiaim, entretanto, ela desviou no último instante. A Malfeitora conseguiu se transformar numa máquina de matar, ali mesmo, externando lâminas pelos dedos, aumentando sua forma corporal, criando mais um par de braços e alterando a pele de forma incerta. Correu na direção de Dolores e golpeou, atirando-a para longe. Dolores tentara golpear ela com a faca, mas ficara surpresa com a dureza de sua pele.


“Se ela ficar assim pelo resto da luta, eu vou morrer…” pensou pouco antes de atingir o chão.


Em algum lugar próximo, pessoas sem rostos e sem nomes pareciam reclamar do barulho, mas ninguém se intrometeu, ninguém chamou a polícia. Se havia algum risco de assalto, a forma apocalíptica de Nemiaim já eliminara. Na praça, estavam só as duas… Assim como, agora, em outra praça, estavam Débora e Dolores.


* * *

As mãos percorriam a argila, enquanto o torno girava. Perdera o sono, nessas horas, o ateliê sempre o acalmava. A terra era seu elemento, seu prazer. Em outras eras, teria adornado moradias com pedras de todos os formatos e cores, tudo para deleitar os que amava. Agora, se contentava em ter apenas um pouco de estabillidade, um pouco de paz. As mãos estavam começando a pressionar a argila, dando-lhe uma forma arredondada, a forma de um vaso, mas a voz veio com força e Sérgio simplesmente amassou a peça com a desconcentração.


“KIBUKO, EU TE COMANDO… KIBUKO, OUÇA-ME AGORA E OBEDEÇA… UM IRMÃO PARECE ESTAR COM DIFICULDADES… ELE ESTÁ PRECISANDO DE AJUDA PARA ENCONTRAR TURAL, A LANÇA DAS HORAS… VOCÊ IRÁ AJUDÁ-LO! PROCURE POR ARRKAN…”


* * *


[E, de volta à praça]


Era agora, o momento decisivo. Tural pulou para trás, ganhando distância. O primeiro movimento fora feito e esse era o problema. Em outra brigas, isso seria algo simples, com um pouco de sangue, uns ossos quebrados, uns dentes cuspidos… Porém, nem Tural, nem Dolores eram criaturas simples. Eram Anjos Caídos, provas vivas do divino na Terra, com potencialidades e habilidades de nível sobrehumano. Se um viciado em revistas em quadrinhos os visse, poderia cogitar que as coisas seriam piores para quem estivesse na vizinhaça, afinal, os heróis (ou vilões), geralmente, eram os que menos sofriam nos combates; sempre acabava sobrando para os cidadãos comuns, danos colaterais.


- O quê? – começou a perguntar mantendo distância, olhando o dedo que doía. A confusão impediu o fim da frase, mas estava claro que Tural estava tentando ligar os pontos de como a mulher a sua frente conseguira algo tão letal e sutil.


“Droga, droga, droga, droga, droga, droga, droga…!!!” era a única palavra que parecia existir no vocabulário de Dolores.


Tural começava a indignar-se com a situação. Mal chegara a esta realidade e era ferido pela maldita colher mágica de um semelhante que se achava dono da situação? Se um mero toque já doera assim, certamente era melhor não deixar aquela mulher “raspá-lo de colher”. Também achava um insulto esse tipo de tratamento e devolveria em uma moeda… pior.


A mulher que Dolores conhecera como Débora, agora, estava se transformando. Assim como Nemiaim, seu corpo estava exibindo alguns traços não humanos: de sua boca brotava uma fina névoa de aspecto nojento com cheiro de gangrena, enquanto sua pele apresentava um conjunto de pústulas e tumores.


“Vamos ver agora, maninha…” pensou Tural com um sorriso. Essas características eram impuras. Eram manifestações profanas de si próprio, versões corrompidas de sua forma apocalíptica, maculadas pelo Tormento. Com essas, Tural poderia dificultar o trabalho de Dolores, tornando seu próprio halito uma espécie de veneno, tornando sua pele algo descartável como o rabo de uma lagartixa. Se tentasse prendê-lo, acabaria com uma pedaço de pele podre de lembrança, enquanto ele poderia atacá-la com a surpresa.Tais vantagens, porém, não vinham de graça, Tural precisava acessar cantos de sua mente, pensamentos, emoções que flertavam com seu próprio sofrimento e loucura. Além disso, preparou-se para fazer o uso corrompido da Doutrina do Despertar, não iria curar, iria ferir.


Dolores, com um flashback da luta com Nemiaim, tinha certeza de que poderia vencer seu oponente. Eram da mesma Casa, Flagelo, com certeza, já vira quase todos os truques que poderiam vir nos próximos instantes. Resolveu mentalizar sua Doutrina Primária e uma característica especial, estava certa de que precisaria delas, assim como fez com a Malfeitora. Atacou.


Tural jogou o hálito numa área de um metro. A pestilência cobriu o espaço que o separava de Dolores. Achou que aquilo seria o suficiente para lhe dar tempo para o próximo movimento, entretanto, sua oponente já havia previsto isso e deslocou o vento a sua volta para redirecionar o ar contaminado. Enquanto o dissipava, conseguiu impulso na inércia e jogou-se sobre Tural.


“MAS QUE RAIO DE MULHER É ESSA?!” ele gritou em sua mente, enquanto escapava, ppor pouco, de uma perfuração superficial, deixando parte da pele pendurava na colher.


- Quem é o seu chefe?!!! – Dolores gritou enquanto fazia o próximo movimento. Girou com a naturalidade dos velhos tempos, dos antigos tempos. De arma em punho, também corrompida, poderia agir de forma implacável contra qualquer um. No fundo, gostava disso.


- NÃO…


- Fale agora!!! – gritava enquanto continuava atacando.


Eram golpes demais, Tural mal desviava e sabia que não conseguiria fazer isso para sempre. O pânico começou a tomar conta de sua resolução. Os olhos, até então humanos, de Dolores começaram a ficar maiores, fixos. Como os olhos de um predador atento à presa, não piscavam. Mas ainda não era uma luta perdida. Dolores, cega pelo desejo de caçadora, abriu a guarda por tempo suficiente e Tural aproveitou, empurrando o ombro esquerdo dela. Ao entrar na guarda de Tural, ela acabou abrindo mão da própria proteção. Em seus cálculos, Dolores imaginou que seria um risco aceitável; atingiria seu alvo novamente e finalizaria rapidamente. Poderia se curar depois que neutralizasse a ameaça, porém, foi um erro.


“Eu devo ser muito burra!” vociferou em seu interior. “Qual é o meu problema com Caídos e venenos…?!” Invocou os ventos novamente. Jogou Tural quase na esquina e começou a caminhar em sua direção quando esse chegou no chão.


Tural estava apavorado. A mulher o superava em habilidades de combate, além de ser sagaz, sempre se colocando alguns movimentos à frente. Mesmo que assumisse sua forma angelical completa, era o fim da linha.


“SERÁ QUE ELA VAI ATRÁS DELES TAMBÉM?!” Ironicamente não era sobre si que resolveu pensar. Como ficaria o destino de Dona Adelaide, dos Parasitas, de Patrício, Mariana e Nestor?


- ÚLTIMAS PALAVRAS? – a Flagelo de olhos fixos disse a poucos centímetros de distância.


- POR FAVOR… - disse com a voz arranhada - POUPE OS MEUS HUMANOS…


Dolores mostrou os dentes num sorriso que misturava deboche e prazer. Ele desistira de lutar, a vitória era dela. Terminaria o trabalho e sairia superior novamente; fora muito parecido com Nemiaim. Não se importava com os humanos, mas vê-lo subjulgado era uma delícia, vê-lo com o pavor nos olhos não tinha preço. Levantou a colher para desferir os golpes finais.


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Morrigan (Kami) Ankh

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Revisão: Filipe Dias Tassoni (@amarelocarmesim)

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******* CAPÍTULOS ANTERIORES *******

1) FUGA [do Abismo] --- Nome Verdadeiro, Nome Celestial, Abismo e Corpo Hospedeiro. 2) LEMBRANÇAS [Paralelas] --- Casa, Adão e Eva, Lúcifer, Gehinnon (a primeira cidade), Ressonância

3) RECOMEÇO [Legado] --- Legado, Surgimento da Humanidade, Duas Ordens do Criador, Ahrimal, Grande Debate, Semblantes, Consciência, Eminência, Os nomes de alguns Anjos Rebeldes importantes na história do cenário, Miguel

4) VINGANÇA [Justiça] --- Doutrinas, o fim da imortalidade da humanidade, Casa Flagelo, Doutrina do Despertar

5) REFLEXÃO [Cautela] --- Antecedentes (Fé, Contatos, Recursos), Pacto e Ceifar Fé 6) CIGARRO [Negociações] --- Pacto (investimento), Seguidor, Tormento

7) ASCENSÃO [Poder] --- Antecedentes (Contatos), Revelação, Doutrina Primária 8)  CONTATOS [Diversidade] --- conceito de Invocação (uso do Nome Celestial para comunicação) 9) CIGARROS [Delboro Light] --- Presciência Sobrenatural

10) PREPARAÇÕES [Lâminas] --- aliados 11) LÂMINA [Faca] --- absorção de um Demônio por outro

12) NOVIDADE [Vizinhos] --- características de Forma Apocalíptica

13) TIC TAC [Reunião] --- interação social


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