DEMÔNIO A QUEDA - introdução ao cenário (capítulo 10)

Atualizado: Out 2


Pessoal, como estão?

No capítulo passado, comecei a apresentar outro Caído na história e continuo a sua versão do que está acontecendo. Quem chegou agora, vai até o final deste capítulo e clica nos títulos dos capítulos anteriores para acompanhar desde o início! E, bora lá, sem mais enrolações!


**********

10. PREPARAÇÕES [Lâminas]


Dolores acordou cedo. Fez um café preto puro e um pão com manteiga. Trocou de roupa, pegou a carteira, a máscara, as chaves e uma mochila.

Caminhou até a parada de ônibus e esperou. Odiava pegar ônibus antes e, agora, estava pior. Havia menos ônibus já que as pessoas não deveriam sair tanto; havia mais pessoas nos ônibus porque havia poucos horários para todos.

Dolores ainda teria que ir até o centro histórico e fazer uma conexão. Fumou o dobro dos cigarros de costume, seus Delboro Light, enquanto esperava o próximo ônibus.

“Outro Caído... de novo.” Pensou entre uma tragada e outra. “Havia quatro anos desde a última vez em que encontrara um. Não foi um encontro amistoso, e ela quase morreu.” Outra tragada. Daquele encontro, restaram alguns benefícios que julgou melhor deixar com um humano no qual confiava. Aníbal era filho de Ferdinando Hernandez, um lojista de antiguidades que Dolores conhecera perto da rua de antiquários do centro histórico. Isso foi há cinco anos e meio atrás, quando ela estava tentando achar uma velharia para um amigo secreto de final de ano.

O senhor Hernandez lhe ofereceu uma caixinha de música com uma pequena bailarina solitária que rodopiava no próprio eixo. Estava tão presa a sua própria existência artificial, quanto a Elohim que habitava o corpo de Dolores. Comprou a caixinha de música e saiu caminhando. Em algum momento, na multidão, alguém bateu no embrulho. Dolores não conseguiu ver através da multidão de pessoas, mas o estrago ocorrera: a engrenagem musical parara, a bailarina não dançava mais.

Estava anoitecendo, então, ela correu para a loja de antiguidades de Hernandez para ver se poderia trocar, ou se ele tinha o nome de alguém que pudesse reparar aquilo. As lojas começavam a fechar, mas Dolores viu a porta aberta com a luz batendo na calçada. Foi se aproximando, quando escutou outra voz, mas agressiva, intimidando o lojista.

Ela ainda se importava com as pessoas naquela época. Ainda lembrava de seus deveres para com a humanidade. O senhor Hernandez era um homem velho, de seus sessenta. Era o vendedor da velha geração, que só pararia quando sua hora chegasse e a terra fosse posta sobre seu caixão. Mas a hora não precisava ser naquele momento e Dolores interveio.

Não pensou muito. Um pouco de mal estar para aquele criminoso provalecido. Um mero toque, e jogou uma febre delirante sobre o homem. A faca que usava tremeu entre os dedos, não, eram seus dedos que tremeram e derrubaram o objeto. Gotas de suor fugiam pelos poros, encharcando a roupa do homem. O senhor Hernandez estava encolhido no mesmo lugar desde que ela entrara na loja. Um corte na testa deixava um pouco de sangue escorrer.

Ela sabia o que era aquilo: medo. Medo de morrer pela mão de um desconhecido de sangue frio, medo de morrer longe daqueles que se ama, medo de morrer porque ainda havia tanto a fazer.

O delírio da febre foi um presente. Parte dela tocou aquela mácula dentro de sua essência divina e pensou em eliminar aquele humano, mas parte dela voltara a si quando vira o senhor Hernandez. Havia coisas demais entre o céu e a terra, hoje, não haveria mortes, não pela mão dela.

Assim que o criminoso caiu no chão, implorando por ajuda, reclamando do frio, procurando no teto da loja pelo alívio que não viria, ela foi até o senhor Hernandez. Ela viu como ele a fitava. Não sabia o quanto este havia visto do final. Daquele dia em diante, algo a uniu ao homem chamado Ferdinando Hernandez.

Pausou o devaneio para jogar o toco de cigarro fora. O outro ônibus veio, Dolores subiu e pegou o último assento de janela no final do transporte. Voltou às lembranças.

Ela aparecia ocasionalmente na loja. Não ia para comprar coisa alguma, apenas para trocar algumas palavras, marcar presença. Aníbal lhe disse, certa vez, que cogitou que Dolores tinha um caso com seu pai na época. A verdade é que sentira que devia uma explicação ao lojista, ao mesmo tempo, ele nunca perguntou nada. Quase um ano depois daquele incidente, contou a verdade e ganhou um amig... Servo. Era algo simples, eles conversavam sobre coisas pequenas, insignificantes até, mas ela sentia algo de novo, um calor ao ver aquele humano bem.


Ferdinando foi alguém especial. Não a questionou, mas se ofereceu para ajudar. Havia algo em seu olhar que a fazia se sentir menos suja e infeliz. Às vezes, era como se pudesse se redimir através dele. Ao longo dos anos, Dolores contou alguns detalhes sobre a Criação antes de tudo, mas omitiu, claro, a parte do Abismo e do Tormento. Queria manter aquele olhar e brilho no senhor Hernandez. Queria se sentir necessária e especial mais uma vez.

Quando o senhor Hernandez ficou doente de uma infecção pós-cirurgia, se ofereceu para curá-lo, mas o homem recusou. “Somente os meus relógios antigos...” Um solavanco do ônibus, algum buraco no asfalto certamente. A próxima parada era a sua. Levantou-se e aguardou o ônibus parar.


Caminhou quatro quadras por uma rua de acesso local e chegou a uma casa branca de dois andares com um par de palmeiras na frente e uma árvore de hibiscos na calçada. Tocou a campainha e esperou. Em cinco minutos, Aníbal vinha abrir a porta.

- Bom dia, Dolores... Entra.


- Bom dia, Aníbal.


- A Paula já vai servir o almoço. Você gosta de carne de ovelha?


- Eu como.


- É... Bem, quer ir ao cofre, já?

- Ainda não, não quero tirar as coisas de lá e correr o risco de alguém tocar. Sabe como é...


- É... Não é seguro...

Quando o senhor Hernandez estava no leito de morte, Aníbal foi apresentado oficialmente à Dolores. O pai foi muito cuidadoso em apresentar a Elohim. Ele ficou cético a princípio, mas começou a entender o real relacionamento dela com o pai. Aníbal foi fiel ao pedido do pai. Dolores sabia que em parte, era fiel porque parte dele acreditava, mas a outra parte tinha um chamado filial para isso, e deveria bastar. Os Caídos pareciam trazer alterações além das que os mortais suportavam, e Dolores tentou se manter à margem, interferindo o mínimo possível nessa família. Devia isso a Ferdinando.

“Somente os meus relógios antigos... vieram com corda para continuarem funcionando para sempre e, mesmo assim, as peças se desgastam, Dolores... é a minha hora, deixe-me ir.” Ele disse um dia antes de falecer. Odiava essa condição imposta pelo Criador. Odiava o Criador, odiava seus irmãos e odiava a si mesma. Não sabia que palavras poderiam doer tanto mesmo após tantos anos. Segurou uma lágrima dentro do olho. Não, não iria chorar. Cumprimentou a esposa de Aníbal, Paula, e sentou-se à mesa.

Almoçaram.  Carne de ovelha com batatas e sagu de vinho para sobremesa. Bastante sofisticado, quando comparado com as omeletes e latinhas de Dolores.

- Podemos ver o cofre, agora. – ela disse como alguém seguindo o protocolo de segurança de alguma agência secreta.

- Claro... claro... – disse Aníbal se levantando e indicando o caminho.

Na biblioteca, atrás de uma estante móvel, ficava o cofre. Era antigo, escuro e grande, mas com alterações. Fora aprimorado para conviver e superar a modernidade, e os oportunistas de plantão. Aníbal pôs o código e puxou a porta que fez um leve barulho. Dentro, era possível, ver algumas caixas de veludo, com algumas cédulas de dinheiro presas em atilhos. Na parte inferior, à direita, estava um saco de linho com um nó no topo.

Dolores se ajoelhou e contemplou aquilo por três segundos. O peso era o mesmo da última vez, um misto de objetos e algo de culpa. Abriu e encontrou as duas do mesmo jeito que deixou. Uma faca escura e uma colher antiga envoltas num pedaço de camiseta velha.

- É só isso, não é? – escutou a voz de Aníbal sobre seu ombro.


- Só? – ela sorriu. – Eu não diria isso... – riu.

**********

Morrigan (Kami) Ankh

Facebook: Pensando em RPG   Orkut: Pensando Em RPG Discord: Pensando em RPG

Facebook: Amarelo Carmesim Blogger: Amarelo Carmesim

@Vale das Trevas

******* CAPÍTULOS ANTERIORES *******

1) FUGA [do Abismo] --- Nome Verdadeiro, Nome Celestial, Abismo e Corpo Hospedeiro. 2) LEMBRANÇAS [Paralelas] --- Casa, Adão e Eva, Lúcifer, Gehinnon (a primeira cidade), Ressonância 3) RECOMEÇO [Legado] --- Legado, Surgimento da Humanidade, Duas Ordens do Criador, Ahrimal, Grande Debate, Semblantes, Consciência, Eminência, Os nomes de alguns Anjos Rebeldes importantes na história do cenário, Miguel 4) VINGANÇA [Justiça] --- Doutrinas, o fim da imortalidade da humanidade, Casa Flagelo, Doutrina do Despertar 5) REFLEXÃO [Cautela] --- Antecedentes (Fé, Contatos, Recursos), Pacto e Ceifar Fé 6) CIGARRO [Negociações] --- Pacto (investimento), Seguidor, Tormento 7) ASCENSÃO [Poder] --- Antecedentes (Contatos), Revelação, Doutrina Primária

8)  CONTATOS [Diversidade] --- conceito de Invocação (uso do Nome Celestial para comunicação)

9) CIGARROS [Delboro Light] --- Presciência Sobrenatural

8 visualizações
 

Formulário de Inscrição

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram