Antologia Carmesim 2 - XXIII

Cai a tarde e, como cortina que cobre o sol, a última nuvem do dia prenuncia uma noite escura e nublada. Heitor anda só pelas ruas da imensa capital do estado. Seus pensamentos se elencam como dados na tela fria que é sua mente. As questões do trabalho, ser advogado criminalista não é fácil; as atenções, quase automáticas, para se esquivar da violência das ruas e a necessidade de chegar em casa e ver suas coleções.


O carro de aplicativo o deixa duas quadras antes da moradia. Velha casa da família, não tão suntuosa, não tão pobre. Andar duas quadras não é economia, mas, sim, uma necessidade de não ser rastreado. Sua coleção exige sacrifícios. Duas esquinas, um beco sujo e mais meia quadra são vencidos com passo rápido e olhos alertas. O mendigo de sempre o cumprimenta, o trocado dado e algumas poucas palavras entre eles são um sinal de entendimentos além do comum. Heitor gosta de ter um ou outro olheiro no bairro. Usar os mendigos é prática sua desde a adolescência, aprendera com o pai.


Na casa, o velho assoalho de madeira da cozinha é um aconchego, assim como as poucas pratas que a falência do falecido pai deixou nas gavetas. O velho palacete alquebrado é um marco de que o tempo passou para aquela família. Filho único, só, sem esposa ou filhos, Heitor se debruça nos cinquenta anos e mantém práticas para manter a forma. É necessária uma rotina fiel para se manter fiel ao que faz nas horas vagas.


Da geladeira para a mesa, micro-ondas e comida congelada, duas refeições. Quando a primeira fica pronta a segunda é posta para um segundo ciclo. Algumas gotas dos compostos relaxantes usados em cavalos, e Heitor desce para alimentar o prisioneiro do porão. O ex-colega de trabalho era um empecilho e, agora, na mente distorcida do dono da casa, é o início de uma escavação que culminará em várias obras de arte.


- Trouxe a comida, Sérgio. Não te preocupa, não precisa mastigar muito!


- Filhu da putaaa, arancou us meus dentix, disgrachado! – O homem na cela do porão tem manchas roxas em vários tons que denotam diversos períodos de tortura. Sua voz é nitidamente prejudicada pelo inchaço nas gengivas e bochechas. Fora da cela uma 0bandeja prateada ostenta mais de duas dúzias de dentes, ao lado, um alicate polido e brilhante.


- Acordou então? Vejo que a anestesia passou. Come logo. Temos mais diversão na madrugada.


O homem se encolhe, sabe que unhas arrancadas, coletas de sangue e outros fluidos com agulhas de diversos tamanhos, raspagens, sondas e cortes diversos pela pele viraram uma rotina nas madrugadas das últimas semanas. Heitor sorri um sorriso quase infantil, quase belo, ao ver e manusear os dentes de Sérgio que estão na bandeja. Na parede oposta à cela, conservados com tratamento químico raro e específico, rostos humanos ornam bustos de madeira. Vinte e dois. Vinte e duas vítimas, homens, mulheres, crianças. Rostos arrancados e transformados em peças de decoração, na frente de cada troféu uma caixinha com os dentes de cada vítima. Limpos e ordenados como uma equação matemática.


Comida na cela, dentes analisados, um a um e Heitor sobe; precisa comer, precisa fazer ligações e trabalhar um pouco. Primeiro trabalho, depois diversão. A comida está quente, sabe pelo tempo e não pelo aviso sonoro, já que o apito do micro-ondas não pode ser ouvido do porão assim como os gritos do homem não ressoam pela casa. Bloqueio de acústica perfeito, criada sob medida pelo pai que fazia do porão um cassino clandestino para amizades seletas nos anos 50. Naquela época tudo era glória para a família, a construtora navegava em ventos favoráveis e o cassino dava dinheiro aos montes, que era lavado em vários negócios pela cidade. Agora o empreendimento é outro. Arte e dor.


Na cozinha, pegando a comida e usando um pano para não queimar os dedos na embalagem, Heitor sentiu a presença pela primeira vez. A criatura, mesmo lhe trazendo lembranças incomuns, era diferente de tudo que havia visto naquele mundo. Deformada, mas com um ar de orgulho na face que lembrava a pele anelada de um verme. À primeira vista, pareceu ver uma corcunda, mas os olhos do advogado perceberam que ao lado da cabeça que lhe encarava com olhos amarelos, havia outra, menor, que repousava no espaço da clavícula esquerda pouco antes de chegar ao ombro, parecia uma cabeça de criança pelo tamanho diminuto, entretanto horrendamente deformada que parecia dormir docemente.


Mais alto que o advogado, o ser esperava, próximo à mesa, o olhar sem pupilas, formado por poças amarelas brilhantes não dava nenhum tipo de expressão. Vestido como um mendigo e cheirando a uma podridão adocicada, a criatura parecia ter mais direito sobre a casa do que o próprio e único herdeiro. Heitor não sentiu medo, sentiu uma espécie de fascínio. Aquele tipo de monstruosidade habitava seus sonhos desde criança e movia sua fixação por sua própria arte. Quando criança desenhava aquela mesma criatura nos cadernos, o ser era chamado de Santo dos Esgotos. Na cidade sempre existiu uma lenda sobre um horror de duas cabeças que habitava as profundezas do sistema de saneamento.


Um santo que ofertava trocas, um santo que atendia nos becos, nas vielas mais escuras. A lenda da cidade era uma piada em todos os círculos, mas defendida por vadios e mendigos da pior espécie. Um santo deformado de duas cabeças cujo corpo lembrava uma mistura de homem com verme e outros horrores que somente florescem na escuridão. Heitor não tinha medo, sentia uma reverência, uma vontade de servir aquele ser, mas tremeu quando ouviu a voz da criatura, uma voz calma, sem emoções, uma voz onde as palavras pareciam demorar a fazer sentido, mas quando faziam, pareciam deixar marcas na alma.


- A polícia descobriu teu pequeno atelier. Amanhã este lugar será invadido quando abrires a porta para ir trabalhar. Serás reconhecido por todo o mundo e morrerá numa instituição psiquiátrica qualquer, drogado e sendo submetido aos mandos judiciais.


– A fala era pomposa, como uma fala de outros tempos. Heitor era fascínio e preocupação, lembrou que ainda precisaria de algumas horas para remover a face de Sérgio. Tinha certeza que não estava alucinando.


A criatura, impassível, continuou num tom igual ao anterior:


- Faz teu trabalho, te aguardo, um de meus fiéis removerá tuas peças e levará para tua nova casa. De onde venho, és apreciado como um grande artista. Precisamos de alguém que agregue um pouco de arte à nossa escuridão no fundo da terra. Necessitamos também um bom advogado para dar ordens à advogados que comem em nossas mãos, e um assassino frio que saiba se esgueirar bem tanto na sombra quanto na lei.


Heitor exultou, terminaria a vigésima terceira obra de arte. Como bom advogado sabia que aquela proposta de ajuda certamente exigia dele algo em troca, mas sentia-se tão bem com aquela criatura por perto, sentia como se fosse um velho membro da família que reencontrara. Deixou a janta sobre a mesa e desceu para fazer a máscara final antes de abandonar a casa.


Enquanto o humano descia as escadas, Duhakaulo ponderava sobre a aquisição, o advogado era um assassino que gostava de armazenar troféus, um psicopata perfeito e sem nenhum tipo de escrúpulo no trabalho e fora dele. Após o Abraço e com algum tempo na família, seria uma peça poderosa no tabuleiro da cidade. O fato de se auto intitular como um artista tornava ainda uma boa piada. Afinal, o útero dos esgotos também teria um pouco de arte refinada. Também, honraria a última promessa feita para o pai do homem, que fora um de seus fiéis no passado. Sorria e aguardava...

Texto por: Filipe Tassoni (Amarelo Carmesim)

Imagem por: Filipe Tassoni (Amarelo Carmesim)

Revisão: Morrigan Ankh ( Pensando em RPG)

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