Antologia Carmesim - Gaspar24h


A distância entre Santa Walburga e Minas d’Ávila é de 260 quilômetros, não há, entretanto, uma estrada que corte a região dos alagadiços ou que corte o Campo de Modilhões em linha reta. Existe a rodovia estadual Barão de Torrell apelidada pelos motoristas “rodovia vai pro inferno” que, em condições trafegáveis, faz qualquer um entender o motivo de seu apelido.


Sinuosa e cheia de desvios periódicos, ocasionados por cheias dos alagadiços e outros problemas, a Torrel se aproveita de uma série de estradas vicinais que se espalham como teias por aqueles campos de mato baixo e denso, ou por matas fechadas e cheias de aves agourentas.


Como contornar pela Estrada do Mar aumentaria meu percurso em algumas horas e a véspera do natal me impunha uma condição dura: comemorar com a esposa e as crianças o primeiro natal na casa nova, decidi tomar a “vai pro inferno” e rezar que suas voltas pelas velhas regiões de fazendas decrépitas e vegetação insalubre me levassem para casa mais rápido.


Quando sentei no carro, ainda no estacionamento, eu já conhecia a história de que se você pega aquela estrada com pressa, leva o dobro do tempo. Os negócios da construtora não acabavam nunca e o atraso fora inevitável. Chovia leve quando cruzei o pórtico de pedra ao norte da Avenida dos Caixeiros e entrei na Estadual. Os primeiros dez quilômetros eram postos de gasolina e, de quando em quando, uma ou outra cafeteria de beira de estrada. Numa delas, a que pareceu menos suja, comprei um duplo e fui bebericando.


Nem foi surpresa quando o primeiro desvio me tirou da via asfaltada colocando o carro numa lodacenta estradinha arborizada. Ainda era dia e, antes de vencer os primeiros duzentos metros de barro, um solavanco fez meu duplo voar do porta copos e encher o carro da bebida fumegante. É engraçado como a certeza de que você não vai bebê-lo, faz o cheiro de café derramado passar de delicioso para desagradável.


Com o carro cheirando a café, o GPS sem sinal algum, os presentes de Shangela e as crianças no banco de trás, fui contornando buracos, atravessando poças d’água ferrugenta até que, com a pouca luz do nublado de fim de tarde, e alguns desvios depois, cheguei numa parte menos danificada das vias rurais. Ansiava pelo que viria após a ceia: ver as crianças abrindo os presentes seria a recompensa por aquela pressa louca.


Meia hora depois, já era noite e a chuva não era mais a fina garoa que me acompanhou durante a viagem, tornara-se uma torrencial tempestade. O motor do carro simplesmente parou de funcionar quando cruzava uma vila no meio dos bosques de Modilhões. Um lugar sem nome no mapa, poucas casas, algumas luzes nas janelas e nenhuma viva alma nas ruas.


Meu ódio do carro parar na véspera de natal, ficar sem sinal no telefone para avisar alguém ou chamar socorro só cessou quando vi pelo para-brisa que, em menos de vinte metros, talvez por um milagre de natal, havia um daqueles combos de mecânica e bar 24 horas. Mesmo no escuro, e com a chuva, era possível enxergar um letreiro velho, caindo aos pedaços, onde se lia: Gaspar24h. Minha mente sonhava alto ainda, Gaspar era um rei mago, eu devia estar, sim, vivendo um milagre de natal. Desci do carro e corri até o Gaspar24h.


Um homem baixinho e atarracado me atendeu com uma toalha suja, mas seca, que aliviou o tanto de água que encharcava meu rosto e cabelos, não demorou muito e saiu para a chuva com uma caixinha de ferramentas. Ao lado da oficina, suja e precária, havia um barzinho, que, talvez, rivalizasse em sujeira e precariedade, mas lá de dentro

vinham vozes animada. Distraí-me um pouco tentando ouvi-las, quando o homem, com seu macacão azul onde se lia o nome “Apolônio”, voltou, e, solene, disse que em duas horas o carro funcionaria, mas que teria de puxá-lo para dentro da oficina com um guincho. Sugeriu que fosse ao bar, de pronto aceitei a ideia, talvez um telefone público, uma ligação para casa e um pouco de sopa quente fossem o presente de natal que eu abriria antes da meia-noite. Em meu relógio de pulso, os ponteiros passavam um pouco das dez da noite e eu chegaria, quase, a tempo.


O interior do velho Gaspar24h era sujo, cheirando a suor e decorado com aqueles papeis de parede que já absorveram tanta fumaça de cigarro que têm manchas em todos os tons de amarelo conhecidos pelo olho humano. A mulher do balcão parecia ser a única funcionária, seus olhos me fulminaram assim que entrei. Aquela expressão de “inferno, tenho que trabalhar” brotou em seu rosto enquanto largava o livro que lia e montava um sorriso com vários dentes faltantes. Ainda no bar, havia uma única mesa sendo utilizada, três homens, falastrões, copos de bebida e carteado, riam e apostavam. Pedi algo para comer e descobri que ainda havia o especial da casa. “Especial da casa” é o nome que dão para aquela gororoba congelada que descongela fácil e engana o bucho de qualquer um. Sentei próximo da mesa dos jogadores e ali começou minha certeza de que o milagre de natal era uma passagem para o inferno.


- Este pertenceu a um advogado em Walburga! E eu o aposto e mais estes dois do menino da senhora Cândido que foi levado pelo tarado em 56. - Foi a frase que me fez olhar para a mesa dos jogadores com mais atenção, não apostavam moedas ou fichas. O jogo era pôquer, mas as apostas eram coisas que pareciam dentes.

- Vou cobrir esta aposta com três molares que vieram direto do presídio de Poço do Padre e acrescento um canino do velho Michel que morreu no acidente da mina, ano passado.

Aquilo era algo estranho, as frases, as apostas. A forma como se comportavam. Pareciam velhos, mas tinham uma atitude altiva e gestos rápidos, na hora não percebi, mas hoje sei, eram gestos quase espectrais. Meu prato de especial do dia já estava vazio quando um deles me olhou geladamente nos olhos e perguntou quanto eu queria apostar. Desconversei, tentei sorrir e perguntei onde tinha um telefone. Foi meu último pensamento sóbrio...


A mesa de jogo era grande e eu pequeno, parecia uma criança jogando com velhos homens. A minha esquerda, o mais velho usava uma espécie de farda puída da primeira guerra mundial e cheirava a algo como alcatrão e cebolas, cebolas muito velhas. À direita, o mais moço, de roupa folgada e apenas pele por sobre ossos. Parecia um manto de pele por sobre ossos pontiagudos. Seu sorriso era completo e se orgulhava disso. Foi quem estendeu o alicate e disse que ali só podíamos apostar coisas de grande valor.

Por fim, a minha frente, o homem dos olhos gelados. Parecia muito com o mecânico, eu sabia que seu nome agora era Gaspar, ele só se deixava chamar de Apolônio quando atendia na mecânica. Sua pele era coberta por algo cinzento e oleoso que se adensava próximo dos olhos. Deu as cartas na primeira partida, também foi o primeiro vencedor. A regra era clara, ali, no começo das apostas, já perdi dois molares. O sangue escorria pelo meu queixo e se coagulava nas roupas, não doía muito e, quando passava a língua nos buracos que os dentes deixavam, sentia algo amortizado e muito sombrio na boca.

Dos outros não soube o nome, tenho até medo de saber. A árvore de natal montada no canto do bar tinha algumas luzes queimadas que nunca acendiam, meu sorriso ficou assim depois de três partidas. Apostas altas, caninos, pré-molares, um deles quebrou ao sair e tive que compensar cavando com uma faquinha até poder apostar a raiz por completo. Me acordei do sonho louco já dirigindo para casa, era a entrada de Mina D’Ávila. A língua correu pela boca na esperança de ser um pesadelo, mas o pesadelo foi encontrar nove partes minhas faltando.


No bolso havia um pequeno espólio, acho que ganhei uma partida! Só de pegá-los na mão, sabia que um dos caninos era de uma mulher da cidade de Cambra, que criava gatos e era sócia de um salão de beleza; os outros dois eram pedaços lascados dos dentes do velho Nelson ,que morreu de frio durante o inverno de 74. Nunca conheci um Nelson que morreu de frio, ou uma mulher com gatos de Cambra, mas, após o natal, quando voltei para procurar o Gaspar24h, eu tinha os bolsos cheios de dentes de Shangela e de meus filhos.


Conto por: Filipe Tassoni (@amarelocarmesim)

Revisão: Morrigan Ankh ( @pensandoemRPG)


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